O consumo do mel e as crianças

*Másio Sérvulo Magalhães

“Menores de um ano devem evitar o consumo de mel “. Este foi o alerta da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que virou matéria sensacionalista do Fantástico, confundido a população sobre o que é certo no que diz respeito ao consumo deste produto. Assim, como presidente da Federação Mineira de Apicultura (Femap-MG), acho pertinente esclarecer os fatos.
A Anvisa recomendou no dia 19 de agosto que não seja dado mel a bebês com menos de um ano de idade. O alerta foi feito devido aos riscos de botulismo - doença que pode ser fatal e cujos microorganismos causadores foram encontrados em certas amostras de mel caseiro. “A vigilância sanitária está trabalhando com o princípio da precaução, uma vez que o alto teor de açúcar e a baixa atividade de água, próprios do mel, impedem a germinação do esporo e, conseqüentemente, a produção da toxina”, é o que reforça a diretora da Anvisa.
De acordo com este órgão, sete dos 100 exemplares do produto investigados acusaram a presença da bactéria Clostridium botulinium. As amostras foram coletadas entre 2002 e 2003 em mercados, feiras livres e camelôs dos estados do Ceará, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Santa Catarina e São Paulo.
De posse dessas informações, a agência recomendou que as pessoas evitem a compra de mel sem registro dos órgãos federais (SIF), Estaduais (IMA) e Municipais (Vigilância sanitária do Município), já que o mel com registro vem de apicultores rastreáveis, que trabalham com Boas Práticas Apícolas, do campo a casa do mel, regulamentadas pelo Ministério da Agricultura, visando a oferta de produtos apícolas seguros à população.
O assunto foi pautado pelo órgão em duas reuniões da Câmara Técnica de Alimentos, fórum formado por professores especialistas que fornecem suporte técnico à Gerência Geral de Alimentos da Anvisa.
É pertinente esclarecer que, segundo pesquisadores, a ameaça do botulismo é maior principalmente em relação aos bebês com idade entre três e 26 semanas. Apesar de não haver confirmação de casos da doença no Brasil, a atuação da Anvisa está fundamentada apenas em publicações oficiais da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, além de publicações científicas sobre contaminação do mel brasileiro com Clostridium botulinum.
O botulismo intestinal só se inicia após a transformação dos esporos do Clostridium botulinum para a forma vegetativa (início das atividades metabólicas do microrganismo). Na forma vegetativa, esse bacilo se multiplica e libera toxina botulínica no intestino. “É importante lembrar que a multiplicação do Clostridium botulinum e liberação da toxina no intestino só ocorre em crianças que ainda não possuem a flora intestinal completamente formada ou em adultos com alguma doença que possa alterar essa flora protetora”. Em adultos sem problemas relacionados à flora intestinal, o consumo desses esporos nos alimentos não gera qualquer tipo de problema para a saúde.
Será que não seria a hora de avaliar mais cuidadosamente esta questão? E em relação às boas práticas de produção? Nosso setor vem passando por uma reestruturação, principalmente, no que se refere às normas de produção e manuseio do mel e de seus derivados. Nós, apicultores, estamos voltados às melhores práticas, baseadas, principalmente, às normas estabelecidas pelo Ministério da Agricultura e ABNT após o fim do embargo europeu.
A contaminação com esporo de clostridium botulinum pode ocorrer se o apicultor permitir o contato da colméia com o solo que pode estar contaminado, esta prática apícola não é correta e estamos trabalhando para uma apicultura tecnificada que atenta as Boas práticas em toda extensão da cadeia apícola. O setor está crescendo e no ultimo mês de junho/2008 realizamos em BH, o Congresso Brasileiro de Apicultura, com participação massiva de apicultores, o tema central deste evento foi Boas Práticas Apícolas. Enquanto apicultores se unem para o fortalecimento da apicultura, o Dr. Bactéria impacta negativamente o mercado de mel.


Másio Sérvulo Magalhães
*Presidente da Federação Mineira de Apicultura (Femap-MG)